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May 17, 2016

As Litanias de Satã - Charles Baudelaire

Embora já tenha postado escritos de Baudelaire aqui em demasia, não poderia deixar de postar As Litanias de Satã, que para mim é um dos poemas mais intrigantes do autor. Pode ser encontrado em Revolta, parte de sua grandiosa obra poética As Flores do Mal; a tradução (adaptada) é de Guilherme de Almeida.


As Litanias de Satã
Ó tu, o Anjo mais belo e também o mais culto,
Deus que a sorte traiu e privou do seu culto,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Ó Príncipe do exílio a quem alguém fez mal,
E que, vencido, sempre te ergues mais brutal,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que vês tudo, ó rei das coisas subterrâneas,
Charlatão familiar das humanas insânias,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, mesmo ao leproso, ao paria infame, ao réu
Ensinas pelo amor às delícias do Céu,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que da morte, tua velha e forte amante,
Engendraste a Esperança, - a louca fascinante!
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, mesmo ao leproso, ao paria infame, ao réu
Ensinas pelo amor às delícias do Céu,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que da morte, tua velha e forte amante,
Engendraste a Esperança, - a louca fascinante!
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu cuja larga mão oculta os precipícios,
Ao sonâmbulo a errar na orla dos edifícios,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, magicamente, abrandas como mel
Os velhos ossos do ébrio moído num tropel,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu, que ao homem que é fraco e sofre deste o alvitre
De poder misturar ao enxofre o salitre,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que pões tua marca, ó cúmplice sutil,
Sobre a fronte do Creso implacável e vil,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, abrindo a alma e o olhar das raparigas a ambos
Dás o culto da chaga e o amor pelos molambos,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Do exilado bordão, lanterna do inventor,
Confessor do enforcado e do conspirador,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Pai adotivo que és dos que, furioso, o Mestre
O deus Padre, expulsou do paraíso terrestre
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Glória e louvor a ti, Satã, nas amplidões
Do céu, em que reinaste, e nas escuridões
Do inferno, em que, vencido, sonhas com prudência!
Deixa que eu, junto a ti sob a Árvore da Ciência,
Repouse, na hora em que, sobre a fronte, hás de ver
Seus ramos como um Templo novo se estender!

Charles Baudelaire


Aqui pode ser ouvido o poema recitado em francês, pela música Les Litanies de Satan da banda Theatres des Vampires.
Bom fim de semana a todos!

September 15, 2014

O Homem e o Mar - Charles Baudelaire

O Homem e o Mar

Homem livre, o oceano é um espelho fulgente 
Que tu sempre hás-de amar. No seu dorso agitado, 
Como em puro cristal, contemplas, retratado, 
Teu íntimo sentir, teu coração ardente. 

Gostas de te banhar na tua própria imagem. 
Dás-lhe beijo até, e, às vezes, teus gemidos
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos, 
As queixas que ele diz em mística linguagem. 

Vós sois, ambos os dois, discretos tenebrosos; 
Homem, ninguém sondou teus negros paroxismos, 
Ó mar, ninguém conhece os teus fundos abismos; 
Os segredos guardais, avaros, receosos! 

E há séculos mil, séc'ulos inumeráveis, 
Que os dois vos combateis n'uma luta selvagem, 
De tal modo gostais n'uma luta selvagem, 
Eternos lutador's ó irmãos implacáveis! 

Charles Baudelaire

Imagem de dark and skull


Hoje compartilho aqui este inspirador poema de um de meus poetas favoritos, Baudelaire.
O mesmo faz parte de sua grandiosa obra poética As Flores do Mal (1857).
Uma boa semana a todos :)






March 28, 2013

O Vampiro - Charles Baudelaire

O Vampiro

Tu que, como uma punhalada,
Entraste em meu coração triste;
Tu que, forte como manada
De demônios, louca surgiste,

Para no espírito humilhado 
Encontrar o leito e o ascendente;
- Infame a que eu estou atado 
Tal como o forçado à corrente, 

Como ao baralho o jogador, 
Como à garrafa o borrachão, 
Como os vermes a podridão, 
- Maldita sejas, como for! 

Implorei ao punhal veloz 
Que me concedesse a alforria, 
Disse após ao veneno atroz 
Que me amparasse a covardia. 

Ah! pobre! o veneno e o punhal 
Disseram-me de ar zombeteiro: 
"Ninguém te livrará afinal 
De teu maldito cativeiro. 

Ah! imbecil - de teu retiro 
Se te livrássemos um dia, 
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!

Charles Baudelaire


Vampire I, por Edvard Munch