December 19, 2016

O Espectro da Donzela

Era uma fria noite de setembro
Em que, caminhando sob a sombra do luar
Em meio ao denso breu entao vislumbro
Uma pálida donzela a vagar;

De doce compleição, porém distante
Possuía a pele alva como a lua
Ora vi sua lamúria  inquietante
Chorava a dama por angústias suas;

Eu ouvi daquela triste alma o pranto
Clamava ela por um amor antigo
A procurar nas sombras acalanto;

E foi-se ela ao despontar da aurora!
Seria uma alma em seu velho jazigo
Recordando tempos de outrora?

by Vane

Imagem de aesthetic, gold, and hipster

Bom final de semana!
Desejo um ótimo final de ano a todos que acompanham esse blog :)
Abraços



September 13, 2016

Palavras - Sylvia Plath

Palavras

Golpes 
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.

A seiva 
Jorra como pranto, como
Água lutando 
Para repor seu espelho
Sobre a rocha

Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro

Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.

Sylvia Plath




 Hoje, depois de um longo tempo sem postar, apresento aqui este belo poema de Sylvia Plath - o mesmo, a meu ver, define bem a força, dureza e sensibilidade que as palavras podem conter..
A tradução de é de Ana Cristina César.

September 12, 2016

Inspiração: Irina Istratova

  
 Hoje estou a atualizar meu blog depois de um longo período sem atualizações.. Postarei mais um pouco de arte que me inspira aqui! O post de hoje será sobre Irina Istratova.
 Irina Istratova é uma artista digital, fotógrafa e designer russa, que atualmente vive em Kiev, Ucrânia; trabalha muito com arte gráfica e manipulação de fotos, criando imagens belíssimas e surreais, misturando realidade e ficção, uma aura encantada de contos de fada e por vezes um toque de terror.
 A artista, que usa o Photoshop há mais de 10 anos, almeja trabalhar na direção de arte dark e beleza.
 Suas pinturas digitais nos envolvem em uma atmosfera bela e obscura; abaixo mostro um pouco de sua arte inspiradora:

June 20, 2016

A Bela Dama Sem Piedade - John Keats

Hoje posto aqui esta obra de John Keats, que sem dúvida é um de meus poemas favoritos! A tradução é de Izabella Drumond.


A Bela Dama Sem Piedade

Oh! O que pode estar perturbando você, Cavaleiro em armas,
Sozinho, pálido e vagarosamente passando?
As sebes tem secado às margens do lago,
E nenhum pássaro canta.

Oh! O que pode estar perturbando você, Cavaleiro em armas?
Sua face mostra sofrimento e dor.
A toca do esquilo está farta,
E a colheita está feita.

Eu vejo uma flor em sua fronte,
Úmida de angústia e de febril orvalho,
E em sua face uma rosa sem brilho e frescor
Rapidamente desvanescendo também.

Eu encontrei uma dama nos campos,
Tão linda... uma jovem fada,
Seu cabelo era longo e seus passos tão leves,
E selvagens eram seus olhos.

Eu fiz uma guirlanda para sua cabeça,
E braceletes também, e perfumes em volta;
Ela olhou para mim como se amasse,
E suspirou docemente.

Eu a coloquei sobre meu cavalo e segui,
E nada mais vi durante todo o dia,
Pelos caminhos ela me abraçou, e cantava
Uma canção de fadas.

Ela encontrou para mim raízes de doce alívio,
mel selvagem e orvalho da manhã,
E em uma estranha linguagem ela disse...
"Verdadeiramente eu te amo."

Ela me levou para sua caverna de fada,
E lá ela chorou e soluçou dolorosamente,
E lá eu fechei seus selvagens olhos
Com quatro beijos.

Ela ela cantou docemente para que eu dormisse
E lá eu sonhei...Ah! tão sofridamente!
O último dos sonhos que eu sempre sonhei
Nesta fria borda da colina.

Eu vi pálidos reis e também príncipes,
Pálidos guerreiros, de uma mortal palidez todos eles eram;
Eles gritaram..."A Bela Dama sem Piedade
Tem você escravizado!"

Eu vi seus lábios famintos e sombrios,
Abertos em horríveis avisos,
E eu acordei e me encontrei aqui,
Nesta fria borda da colina.

E este é o motivo pelo qual permaneço aqui
Sozinho e vagarosamente passando,
Descuidadamente através das sebes às margens do lago,
E nenhum pássaro canta.

John Keats


magnificentbaroque: “ The Beautiful Woman Without Mercy - John William Waterhouse (1849-1917) ”:
 The Beautiful Woman Without Mercy, por John William Waterhouse

June 12, 2016

Ofélia - Arthur Rimbaud

Ofélia

I.
Na onda calma e negra, entre os astros e os céus,
A branca Ofélia, como um grande lírio, passa;
Flutua lentamente e dorme em longos véus...
- Longe, no bosque, o caçador chamando a caça...

Mais de mil anos faz que a triste Ofélia abraça,
Fantasma branco, o rio negro em que perdura.
Mais de mil anos: toda noite ela repassa
À brisa a romança que em delírio murmura.

Beija-lhe o seio o vento e liberta em corola
Os grandes véus nas águas acalentadoras;
Sobre os seus ombros o salgueiro se desola,
Reclina-se o caniço à fronte sonhadora.

Nenúfares feridos suspiram por perto;
Às vezes ela acorda, em vidoeiro ocioso
Um ninho de onde vem tremor de um vôo incerto...
- De astros dourados desce um canto misterioso...

II.
Morreste sim, menina que um rio carrega,
Ó pálida Ofélia, tão bela como a neve!
- É que algum vento montanhês da Noruega
Contou que a liberdade é rude, mas é leve;

- É que um sopro, liberta a cabeleira presa,
Em teu espírito estranhos sons fez nascer
E em teu coração logo ouviste a Natureza
No queixume da árvore e do anoitecer.

- É que a voz do mar furioso, tumulto impávido,
Rasgou teu seio de menina, humano e doce;
- E em manhã de abril, certo cavalheiro pálido,
Um belo e pobre louco, aos teus pés ajoelhou-se.

E aí o céu, o amor: - que sonho, pobre louca!
Ante ele eras a neve, desmaiando à luz;
Visões estrangulavam-te a fala na boca,
O Infinito aterrava os teus olhos azuis!

III.
- E o Poeta diz que sob os raios das estrelas
Procuras toda noite as flores em delírio
E diz que viu na água, entre véus, a colhê-las
Vogar a branca Ofélia como um grande lírio.

Arthur Rimbaud


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Jean Simmons como Ofélia em Hamlet (1948)

Hoje trago aqui este belo poema do poeta inglês Arthur Rimbaud (1854-1891). A tradução é de Jorge Wanderley.
Uma boa semana a todos!

May 17, 2016

As Litanias de Satã - Charles Baudelaire

Embora já tenha postado escritos de Baudelaire aqui em demasia, não poderia deixar de postar As Litanias de Satã, que para mim é um dos poemas mais intrigantes do autor. Pode ser encontrado em Revolta, parte de sua grandiosa obra poética As Flores do Mal; a tradução (adaptada) é de Guilherme de Almeida.


As Litanias de Satã
Ó tu, o Anjo mais belo e também o mais culto,
Deus que a sorte traiu e privou do seu culto,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Ó Príncipe do exílio a quem alguém fez mal,
E que, vencido, sempre te ergues mais brutal,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que vês tudo, ó rei das coisas subterrâneas,
Charlatão familiar das humanas insânias,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, mesmo ao leproso, ao paria infame, ao réu
Ensinas pelo amor às delícias do Céu,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que da morte, tua velha e forte amante,
Engendraste a Esperança, - a louca fascinante!
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, mesmo ao leproso, ao paria infame, ao réu
Ensinas pelo amor às delícias do Céu,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que da morte, tua velha e forte amante,
Engendraste a Esperança, - a louca fascinante!
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu cuja larga mão oculta os precipícios,
Ao sonâmbulo a errar na orla dos edifícios,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, magicamente, abrandas como mel
Os velhos ossos do ébrio moído num tropel,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu, que ao homem que é fraco e sofre deste o alvitre
De poder misturar ao enxofre o salitre,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que pões tua marca, ó cúmplice sutil,
Sobre a fronte do Creso implacável e vil,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, abrindo a alma e o olhar das raparigas a ambos
Dás o culto da chaga e o amor pelos molambos,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Do exilado bordão, lanterna do inventor,
Confessor do enforcado e do conspirador,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Pai adotivo que és dos que, furioso, o Mestre
O deus Padre, expulsou do paraíso terrestre
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Glória e louvor a ti, Satã, nas amplidões
Do céu, em que reinaste, e nas escuridões
Do inferno, em que, vencido, sonhas com prudência!
Deixa que eu, junto a ti sob a Árvore da Ciência,
Repouse, na hora em que, sobre a fronte, hás de ver
Seus ramos como um Templo novo se estender!

Charles Baudelaire


Aqui pode ser ouvido o poema recitado em francês, pela música Les Litanies de Satan da banda Theatres des Vampires.
Bom fim de semana a todos!

May 3, 2016

Eu Sou - John Clare

Eu Sou


Eu sou, mas o que eu sou quem cuida ou sabe?
Em meus amigos um lembrar perdido.
Gastar as minhas mágoas a mim cabe -
erguem-se e passam num revoar esquecido,
sombras de amor que a própria ânsia esmaga -
mas sou, e vivo - como névoa vaga

lançada ao nada de uma vácua lida,
ao vivo mar dos sonhos acordados,
onde não há qualquer senso da vida,
mas o naufrágio só dos bens passados.
Até os mais caros, meu amor mais fundo,
estranhos me são, ou mais que todo o mundo.

Anseio terras que ninguém pisou,
onde mulher nunca sorriu nem chora,
e onde me unir ao Deus que me criou,
para dormir como na infância outrora -
sem que nenhum cuidado seja meu:
erva por baixo, e acima o curvo céu.

John Clare

Imagem de black and white, flowers, and grass

Hoje apresento aqui esta belíssimo poema de John Clare (poeta inglês do século XIX). A tradução é de Jorge de Sena.

Como devem ter notado, mudei o nome de meu blog!
O título do mesmo a partir de agora fica sendo "Última Elegia" - Devido ao fato de que, inexplicavelmente, nesses últimos dias senti vontade de mudar o nome de meu blog para um nome em português. Acredito que esse nome combina bastante com meu blog. Espero que tenham gostado! :)

April 17, 2016

The Death of Hours - Capítulo III


THE DEATH OF HOURS
Capítulo I | Capítulo II | Capítulo III


   A sala do velho chalé estava quase totalmente silenciosa e soturna na tarde em que as duas mulheres aproximaram-se do tabuleiro; Margott sibilou à jovem:

   - Pois bem, criança, o que deseja saber? Mas lembre-se: não poderás perguntar sobre Deus, ou sobre que âmbito se dará sua morte, ou quaisquer dúvidas desta natureza. Temo que seja perigoso!.

   Sybil momentaneamente pensou e refletiu - Afinal, o que perguntaria à finada Constance? As únicas dúvidas que, de fato, estavam a assombrá-la giravam em torno do suposto suicídio de sua mãe. Quais seriam seus reais motivos? Se Constance sofrera em vida, a jovem nunca tivera ciência deste fato – para ela, suas razões em desejar a Morte ainda eram misteriosas.

   - Desejo saber em que circunstâncias de deu a morte de minha mãe.. Os motivos pelos quais ela acabou por findar sua própria vida! – sentenciou.

   As duas posicionaram seus dedos sobre o tabuleiro, e – para o temor e assombro de ambas – o ponteiro começou a mover-se, de modo a estabelecer ligações entre as letras, formando alguma palavra; elas observavam atentamente a palavra sendo formada: um nome!

   “L-E-O-N-A-R-D”

   Leonard! Sybil por ora não havia compreendido como seu pai poderia ter sido o responsável por tal fatal acontecimento – A menos que ele fosse um individuo cuja natureza era vil – Mas como poderia Sybil ter este pensamento sobre ele? Ou será que o mesmo possuía um lado cruel, uma faceta que ainda lhe era desconhecida? E como, afinal, ele teria sido o responsável pela morte de Constance? Ante a todos estas dúvidas, a jovem sucumbiu a um profundo estado de medo e inquietude; seu corpo estremecia, e seus olhos tornaram-se marejados de lágrimas. Margott, ao ver tal aflição da sobrinha, suplicou-lhe:

   - Acalme-se, Sybil! Ou o pior ainda estará por vir. Devemos ter demasiado cuidado com..

   De repente, o tabuleiro iniciou a recitação do alfabeto de trás para frente; Margott, assombrada, alertou Sybil:

   - Rápido! Afaste seus dedos, ou o espírito irá escapar do tabuleiro!!

   Sybil, rapidamente os afastou. Com suas respirações aceleradas e em estado de pânico pelo que se deu a momentos atrás, olharam novamente o tabuleiro. A atividade paranormal que previamente ocorria nele havia cessado, e ambas ora suspiravam aliviadas. 


-

   Posteriormente veio à tona o fato de que Leonard havia assassinado Constance; isto foi descoberto por meio de uma investigação feita após sua Morte, quando fora encontrado enforcado em seu quarto no longínquo sanatório inglês. Fora descoberto que o infeliz homem estivera corrompido por um desejo de cobiça cada vez maior, o que acarretou no assassinato da esposa – havia muito tempo que não nutria mais nenhum afeto por ela, e na época que tais fatídicos acontecimentos se sucederam, ambos travavam pela separação, porém Leonard desejava todos os bens que a mulher possuía para si. Como já previamente relatado, conseguiu o que almejava, entretanto o assassinato o levara a um estado de insanidade: antes de ser confinado e afastado da filha, dizia-se ele assombrado pelo espectro de sua ex-mulher!

   Sybil mal poderia suportar a angústia que a acometeu, ante a tais fatos revelados; porém Margott, velha mulher que muito entendia a respeito da vil natureza humana e sobretudo da morte, ajudou-a a não sucumbir à tristeza que tais revelações ocasionaram. A velha senhora acolheu-a para morar definitivamente no chalé, no qual retomaram suas vidas depois de alguns anos.


-

   Margott e Sybil foram vistas no conhecido cemitério de Highgate, em Londres, a depositar rosas sobre o túmulo de Constance Hale. 
   Depois o contemplaram por algum tempo; pareciam completamente absortas em reflexões e memórias.
   Os demais túmulos estavam cobertos com relva que cresciam em torno; o de Leonard, que ali jazia um pouco mais afastado do túmulo de Constance, ainda estava nu; era o mais recente daquele lugar.

   Parafraseando Emiy Brontë, em seus famoso romance O Morro dos Ventos Uivantes:
 “(...) sob aquele céu tão suave, olhando as mariposas que volitavam por entre as urzes e as campânulas, escutando a brisa ligeira que agitava a relva, (...) como poderia alguém imaginar que tivessem um sono perturbado aqueles que dormiam naquela terra tranquila?”


FIM
by Vane



Hoje finalmente publico o último capítulo de The Death of Hours! Os links para os capítulos anteriores estão inseridos no início do post.

Sejam livres para deixarem aqui suas críticas, opiniões e sugestões :)

Uma boa semana a todos!

April 12, 2016

April 12, 1976 - first Vampire Chronicles book

"... E eu me vi. 
Quero que olhem para mim da maneira que apresento, 
enquanto juro de coração que esta história é verdadeira, 
assim como cada palavra contida nela.
Sou o Vampiro Lestat. Foi isso o que vi. Foi isso o que ouvi. 
É isso o que sei! Isso é tudo o que sei. 
Acredite em mim, nas minhas palavras, no que eu disse e no que foi escrito. 
Estou aqui, ainda. Sou o herói dos meus próprios sonhos, 
e permitam por favor que eu mantenha meu lugar nos seus. 
Eu sou o Vampiro Lestat. 
Permitam-me agora passar da ficção para a lenda. " 

- Anne Rice, em Memnoch




Em 12 de abril de 1976, Anne Rice publicou o primeiro volume de suas famosas Crônicas Vampirescas, Entrevista com o Vampiro.
Hoje, data de aniversário de tal lançamento, compartilho aqui este fragmento do livro Memnoch, um de meus livros favoritos das Crônicas.
Uma ótima semana a todos!






March 12, 2016

The Death of Hours - Capítulo II


THE DEATH OF HOURS
Capítulo I | Capítulo II | Capítulo III


   Era uma gélida e nevoenta manhã de outono, quando a Sybil partiria, possivelmente para um destino sem retorno. Destino este que visava melhoras, porém a jovem não possuía boas expectativas em relação ao mesmo.. Seu coração ainda era assombrado por vis dúvidas e incertezas; naquele dia em especial instalara-se em seu semblante um estado de profunda melancolia. 

   De repente, o rosto de Constance Hale apareceu em sua mente, como uma furtiva memória.
   Sybil desejou sua presença, a questionar a si mesma se ora sua mãe estava em um lugar melhor, a ter seu merecido descanso; ou talvez se seu espírito ainda padecia das mundanas dores, e ainda, - pobre d’ela! – ainda não encontrara paz.
   Lúgubres indagações lhe vinham à mente, tal como pensamentos dispersos e distantes que de repente vinham à tona.

   “Seria o sofrimento uma prova de que estamos vivos?”

   Em seguida, pensou brevemente em seu pai, o infeliz Leonard. O que seria dele? Sybil lamentou sua infeliz sorte, tentando evitar a possível resposta a tal questionamento, uma vez que esta não parecia muito promitente. 

   Assim, ainda envolva a tais reflexões, a jovem tomou o navio que a levaria a seu longínquo destino, ao encontro de sua parente mais próxima, que estava a morar no norte da Irlanda; a viagem transcorrera sem transtorno algum. Porém.. Pobre Sybil! Sua solidão deixava-a num estado cada vez mais distante. Poderia passar tardes inteiras absorta em leituras, ou com o olhar perdido no mar, no balanço frenético das ondas, a perder-se em pensamentos.

   Logo estava a chegar em seu destino: Margott Hale morava em um casebre de aparência rústica e peculiar, num local um tanto isolado do restante da cidade. 
   Sem duvida não parecia um ambiente muito acolhedor: tal recinto passaria a impressão de ser um local abandonado, se não houvesse um jardim e uma pequena horta razoavelmente cultivada. 
   Ao avistar a jovem, aquela mulher de longos cabelos grisalhos e feições desgastadas pelo tempo acolheu-a afavelmente; Sybil teve uma boa impressão de sua tia, mesmo que não poderia-se dizer que ela houvesse tido a mesma impressão em relação ao lugar aonde ora se encontrava. 

   Ao adentrar e conhecer melhor os aposentos daquela humilde morada, Sybil intrigou-se com o que lá viu: tarôs, incensos, velas, e demais objetos esotéricos cuja natureza para ela ainda era desconhecida, mas que a deixaram estranhamente fascinada. 

   Assim, não pode deixar de questionar Margott a respeito dos mesmos, ao que ela respondeu:
   - Minha cara, já que estarás a morar comigo por tempo indefinido, não vejo o porque de guardarmos segredos uma com a outra. Veja! Através destas cartas, destes instrumentos – ia dizendo, ao apontar ao apontar cartas e livros antigos, que a jovem deduziu que tratavam de ocultismo e temas similares -, eu entro em contato com a nobre arte da quiromancia,.. Tudo o que é sobrenatural me fascina! – sibilou ela, mais baixo, para Sybil. Esta se identificou imediatamente com a tia, desse modo sentindo-se mais próxima dela. 

   - E este.. – disse ela, ao apontar um tabuleiro Ouija – Serve para comunicarmo-nos com o Além. Veja bem, eu o usei poucas vezes, mas é sempre intrigante ouvir o que os mortos tem a dizer. 
   Era já tarde da noite; Sybil observou o tabuleiro à luz do candelabro, estando a tremulante luz das velas a revelar o objeto. Aquele estranho artefato provocou sensações estranhas nela; e em um misto de curiosidade e assombro, um nome veio a sua mente.

   Constance.

   De imediato questionou Margott se poderia algum dia tentar realizar algum contato com sua finada mãe. 
   A reação imediata de sua tia fora de espanto e ressalva, mas, tomada pela insistência da sobrinha, posteriormente acabou por concordar; afinal compreendia tão bem o que era sentir ardosamente falta de entes queridos que não mais viviam; a velha senhora, antes da chegada de Sybil, vivia só.



(continua)

by Vane

February 17, 2016

Fleurs du Mal

Minh'alma silencia o alegre canto
Que outrora em mim esteve  tanto a soar;
Meu espírito ora cobre-se num manto
Das  reais belezas tua alma a ocultar.

Flores do mal em mim desabrocharam,
E nelas impregnada um vil perfume.
Teus ramos, cruelmente despertaram
E envolvem-me num gélido negrume..

Flores do mal que assombram meus caminhos
Sois memórias que já despertaram;
Ora estão a ferir-me teus espinhos,

Tal que figura minhas antigas dores
Que em meu espirito se alojaram,
Jardins de amaldiçoadas e reais flores?

by Vane




January 23, 2016

The Death of Hours - Capítulo I

Ainda com o objetivo de ir melhorando minha escrita e também não ficar muito tempo sem escrever, hoje posto o primeiro capítulo de um conto que comecei a escrever há alguns dias, The Death of Hours.
Em breve postarei mais dois capítulos! :)


THE DEATH OF HOURS
Capítulo I | Capítulo II | Capítulo III


   Observo de longe, através de carvalhos e ciprestes, quase completamente ocultas entre a relva e a hera que cresciam por toda parte as velhas ruínas da mansão da que outrora pertencera à família Hale.

   Família esta que teve seus dias de glória, mas após a morte de Constance Hale e a total perda da sanidade de Leonard Hale, afundou-se de tal modo que ora o nome dos Hale não passa de uma memória. 
   A historia que lhes narrarei sem dúvida parece uma obra de ficção de minha mente, pois rompe a tênue linha que separa a Vida e a Morte, e trata dos sofrimentos inerentes a ambos. A Morte é realmente o fim? Depois dos fatos que presenciei, sentencio que não! Porém, nem mesmo no fim de suas vidas, algumas pobres almas encontram, afinal, a paz.. 

   Os infortunos acontecimentos que ora assombram minha memória datam de uma época muito longínqua.. Tudo se passara no ano de 1852, na Londres da época vitoriana.

   Muito tempo se passara desde então.


-


   Naquela grandiosa mansão havia uma atmosfera que poderia ser descrita como fúnebre; os salões que outrora eram alegres e iluminados, ora eram escurecidos.
   Um silêncio sepulcral e absoluto pairava sobre quase todos os cômodos.
   Constance Hale falecera recentemente, e sua essência ainda parecia permanecer naquela mansão.
   Seu perfume parecia exalar em todo lugar, e isso aparentemente levara o viúvo Leonard a um estado de profunda melancolia e reclusão.

   Leonard passava dias em seu quarto de dormir, lamuriando-se, segundo o próprio, “Pelos erros que cometeu”.
   Era fato conhecido que a morte de Constance havia sido por suicídio; ao menos assim parecia ter ocorrido. Porém Leonard parecia se culpar por este fatal acontecimento, e aos poucos acabou sucumbindo à dor da perda; sua saúde começou a deteriora-se.

   O casal tivera uma filha, Sybil Hale; esta acabara de completar 17 anos. Era uma jovem de semblante amável, e era bela - muito parecida com Constance. Após a morte da mãe, sua face adquiriu uma constante expressão taciturna e sombria.
   Estando Sybil também estava profundamente perturbada por tal ocorrido, também deixava a perda corroê-la lentamente.

   A mansão, depois dos fatos previamente relatados, tinha poucos criados; e raramente as portas e janelas eram abertas, estando o ambiente sempre mal iluminado e lúgubre.

   A morada daquela família, tal como no célebre conto A Queda da Casa de Usher, de Poe, começou a adquirir o aspecto sombrio de seus donos, e entrar em decadência e ruína. 

   Com o passar de alguns meses desde a morte de Constance, e após tanto tempo de isolamento,  Leonard encontrava-se fora de si; comportava-se de forma insana, a lamuriar e bravejar coisas desprovidas de sentido. Dizia-se assombrado pelo espectro de sua falecida esposa, e nas raras ocasiões que fora visto fora da velha mansão, estava no cemitério onde jazia Constance, a profanar seu túmulo a falar com o vazio, proferindo palavras incompreensíveis.
   Apresentou-se como uma ameaça aqueles que moravam perto da mansão Hale, que julgaram-no louco e internaram-no em um sanatório da região, afastando-o da filha.

   Sybil, por sua vez, mesmo abalada com a morte de Constance, manteve-se sã. Fora decidido que seria mais seguro que a jovem, para não ter o triste fim de Leonard vivendo isolada naquela mansão, fosse morar com um parente próximo. 
   Logo se mudaria para viver com sua velha tia Margott, a única parente viva que ainda possuía e preservava suas faculdades mentais.  

   Preparando-se para a mudança, Sybil despedia-se, com os olhos marejados de lágrimas, daquele cenário ora lúgubre, mas que já fora onde passou anos felizes com Constance e o pai.
Naquele momento as boas lembranças lentamente se desfaziam, como cinzas espalhadas ao vento.

   “Afinal, o que os novos ventos do destino me trarão?” 


(continua)

by Vane


E este foi o primeiro capítulo.. deixem suas opiniões, críticas e sugestões!
Um excelente fim de semana a todos.

p.s.: O título do conto é baseado na música homônima do Draconian.

January 19, 2016

Soneto a Vanessa

Hoje posto aqui estes versos que são um presente do talentosíssimo poeta Samuel Balbinot.. 
Sinto-me honrada, e agradeço muitíssimo pelo soneto! :)

Nas noites mais sombrias te deleitas
Mergulhando num céu de escuridão;
Em véus de seda negra tu te deitas
Com rosas cor de sangue pelo chão;

No profundo negrume as mais perfeitas
Formas se moldam, nada é ilusão...
Formas que vagam sempre satisfeitas
Vestidas pela doce solidão;

Quando dos sonhos teus for cair o véu...
Verás anjos de luz vindos do céu
Para levar tua alma em carruagem;

Nós dois aqui estamos de passagem...
Mesmo em tristeza veja a tal beleza
Que te veste doce e bela Vanessa;

Samuel Balbinot



Dunkelheit





"When night falls
She cloaks the world
In impenetrable darkness
A chill rises
From the soil
And contaminates the air
Suddenly...
Life has new meaning."

Burzum - Dunkelheit ♫ ♪


January 14, 2016

War Eternal





"Try to tell you what to do
They love to have control of you
Back against the wall
In danger of losing it all
Search deep inside
Remember who you are..."

Arch Enemy - War Eternal ♫ ♪




December 27, 2015

Música: The Letter Black


Como faz tempo que não faço uma indicação musical aqui em meu blog, hoje apresento aqui uma boa banda de metal alternativo: The Letter Black.


 The Letter Black, anteriormente conhecida como Breaking The Silence, é uma banda estadunidense formada em 2006. Estrearam no mundo da música com o álbum Stand (2007). A banda, atualmente, é composta por Sarah Anthony (vocais), Mark Anthony (backing vocal e guitarra), Slagle Mateus (bateria), Matt e Beal (baixo).
 A sonoridade do The Letter Black alterna entre o metal alternativo e o gothic metal. O som produzido por eles mistura guitarras pesadas com a suavidade do vocal feminino; algumas de suas influências musicais são Sevendust, Metallica, Megadeth e Alanis Morissette.
Conheci esta banda através do álbum Hanging On by a Thread, de 2010; o considero como um de seus melhores trabalhos. Seu álbum mais recente, Rebuild, foi lançado em 2012.
Algumas músicas:





Uma boa semana a todos..^^

December 20, 2015

Pensamento.

"É a incerteza que nos fascina. 
Tudo é maravilhoso entre brumas."

- Oscar Wilde



Um ótimo fim de ano a todos!
Abraços..

December 2, 2015

Canto III - Dante Aliguieri



CANTO III

ॐ

Por mim se vai das dores à morada,
Por mim se vai ao padecer eterno,
Por mim se vai à gente condenada.

“Moveu Justiça o Autor meu sempiterno,
Formado fui por divinal possança,
Sabedoria suma e amor supremo.

No existir, ser nenhum a mim se avança,
Não sendo eterno, e eu eternal perduro:
Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!”

Estas palavras, em letreiro escuro,
Eu vi, por cima de uma porta escrito.
“Seu sentido” — disse eu — “Mestre me é duro”

Tornou Virgílio, no lugar perito:
— “Aqui deixar convém toda suspeita;
Todo ignóbil sentir seja proscrito.

“Eis a estância, que eu disse, às dores feita,
Onde hás de ver atormentada gente,
Que da razão à perda está sujeita”.

Pela mão me travando diligente,
Com ledo gesto e coração me erguia,
E aos mistérios guiou-me incontinênti.

Por esse ar sem estrelas irrompia
Soar de pranto, de ais, de altos gemidos:
Também meu pranto, de os ouvir, corria.

Línguas várias, discursos insofridos,
Lamentos, vozes roucas, de ira os brados,
Rumor de mãos, de punhos estorcidos,

Nesses ares, pra sempre enevoados,
Retumbavam girando e semilhando
Areais por tufão atormentados.

A mente aquele horror me perturbando,
Disse a Virgílio: — “Ó Mestre, que ouço agora?
 “Quem são esses, que a dor está prostrando?” —

“Deste mísero modo” — tornou — “chora
Quem viveu sem jamais ter merecido
Nem louvor, nem censura infamadora.

“De anjos mesquinhos coro é-lhes unido,
Que rebeldes a Deus não se mostraram,
Nem fiéis, por si sós havendo sido”.

“Desdouro aos céus, os céus os desterraram;
Nem o profundo inferno os recebera,
De os ter consigo os maus se gloriaram”.

— “Que dor tão viva deles se apodera,
Que aos carpidos motivo dá tão forte?” —
“Serei breve em dizer-to” — me assevera. —

“Não lhes é dado nunca esperar morte;
É tão vil seu viver nessa desgraça,
Que invejam de outros toda e qualquer sorte.

“No mundo o nome seu não deixou traça;
A Clemência, a Justiça os desdenharam.
Mais deles não falemos: olha e passa”.

Bandeira então meus olhos divisaram,
Que, a tremular, tão rápida corria,
Que avessa a toda pausa a imaginaram.

E após, tão basta multidão seguia,
Que, destruído houvesse tanta gente
A morte, acreditado eu não teria.

Alguns já distinguira: eis, de repente,
Olhando, a sombra conheci daquele
Que a grã renúncia fez ignobilmente.

Soube logo, o que ao certo me revele,
Que era a seita das almas aviltadas,
Que os maus odeiam e que Deus repele.

Nunca tiveram vida as desgraçadas;
Sempre, nuas estando, as torturavam
De vespas e tavões as ferroadas.

Os rostos seus as lágrimas regavam,
Misturadas de sangue: aos pés caindo,
A imundos vermes o repasto davam.

De um largo rio à margem dirigindo
A vista, de almas divisei cardume.
— “Mestre, declara, aos rogos me anuindo,

“Que turba é essa” — eu disse — “e qual costume
Tanto a passar a torna pressurosa,
Se bem discirno ao duvidoso lume?” —

Tornou-me: — “Explicação minuciosa
Darei, quando tivermos atingido
Do Aqueronte a ribeira temerosa”.

Então, baixos os olhos e corrido
Fui, de importuno a culpa receando,
Té o rio, em silêncio recolhido.

Eis vejo a nós em barca se acercando,
De cãs coberto um velho — “Ó condenados,
Ai de vós! — alta grita levantando.

“O céu nunca vereis, desesperados:
Por mim à treva eterna, na outra riva,
Sereis ao fogo, ao gelo transportados.

“E tu que estás aqui, ó alma viva,
De entre estes que são mortos, já te ausenta!”
Como não lhe obedeço à voz esquiva,

“Por outra via irás” — ele acrescenta —
“Ao porto, onde acharás fácil transporte;
Lá pássaras sem barca menos lenta”. —

“Não te agastes, Caronte! Desta sorte
Se quer lá onde” — disse-lhe o meu Guia —
“Quem pode ordena. E nada mais te importe”.

Sereno, ouvido, o gesto se fazia
Da lívida lagoa ao nauta idoso,
Quem em círculos de fogo olhos volvia.

As desnudadas almas doloroso
O gesto descorou; dentes rangeram
Logo em lhe ouvindo o vozear raivoso.

Blasfemaram de Deus e maldisseram
A espécie humana, a pátria, o tempo, a origem
Da origem sua, os pais de quem nasceram.

Todas no pranto acerbo, em que se afligem,
Se acolhem juntas ao lugar tremendo,
Dos maus destinos, que se não corrigem.

Caronte, os ígneos olhos revolvendo,
Lhes acenava e a todos recebia:
Remo em punho, as tardias vai batendo.

Como no outono a rama principia
As flores a perder té ser despida,
Dando à terra o que à terra pertencia,

Assim de Adam a prole pervertida,
Da praia um após outro se enviavam,
Qual ave dos reclamos atraída.

Sobre as túrbidas águas navegavam;
E pojado não tinham no outro lado,
Mais turbas já no oposto se apinhavam.

“Aqui meu filho” — disse o Mestre amado —
“concorrem quantos há colhido a morte,
De toda a terra, tendo a Deus irado.

“O rio prontos buscam desta sorte,
De Deus tanto a justiça os punge e excita,
Tornando-se o temor anelo forte!

“Alma inocente aqui jamais transita,
E, se Caronte contra ti se assanha,
Patente a causa está, que tanto o irrita”.

Assim falava; a lúrida campanha
Tremeu e foi tão forte o movimento,
Que do medo o suor ainda me banha.

Da terra lacrimosa rompeu vento,
Que um clarão respirou avermelhado;
Tolhido então de todo o sentimento,

Caí, qual homem que é do sono entrado.


Dante Aliguieri


ॐ


December 1, 2015

A Witch's Tale - Capítulo III


A WITCH'S TALE
Capítulo I | Capítulo II | Capítulo III


   - Minhas caras – sibilara Erzsébet, indiferente a mim, tal como se não houvesse notado minha presença – É chegada a hora..
Seu rosto estava banhado pela luz do luar.

   - Lucy, – eu supliquei a ela – o que significa isto tudo?
Tentei tomá-la em meus braços, - em vão - e levá-la comigo para longe daquela escurecida floresta.

   Minha esposa lançou-me um olhar profundamente cruel, e de forma violenta livrou-se de meu abraço. Balbuciou inicialmente algo que não compreendi.. mas aos poucos foi capaz de sibilar-me que e que agora seu lugar era junto àquelas feiticeiras. Mas parecia não haver sinceridade em suas palavras frias, em seu olhar lúgubre e vazio.

   Eu gritara a minha Lucy que tudo quilo era um grande absurdo, e em resposta recebi uma grande pontada de dor – era Sarah, que havia investido um violento murro contra minha cabeça.

   A partir daí, perdi meus sentidos.
Quanto despertara, estava ainda na floresta com as irmãs, mas fora amarrado em um tronco de árvore próximo a clareira onde elas se encontravam.
Amanhecia - os primeiros raios da aurora despontavam suavemente no horizonte.
Eu avistei as irmãs e minha Lucy – elas, ao verem que eu recobrara os sentidos, vieram até mim e forçaram-me a beber uma bebida misteriosa.

   Ante aos primeiros goles, senti a piores sensações possíveis – culpas, amarguras, remorsos passados.. tudo aquilo estava a fervilhar em minha cabeça, em meio a um grande emaranhado de lembranças e memórias..

   As irmãs disseram que conseguiam ver através de minha alma – conseguiram ver como através de meus olhos meus piores pecados, traições, meus maus desejos.. bem como as almas infelizes que eu havia prejudicado durante minha vida.

   Sim, irmã! Agora parece-me o momento propício para lhe confessar sobre minha natureza vil! Minha alma é desgraçada e naturalmente corrupta, manchada de crimes passados que eu acumulara durante toda a minha deturpada vida.
No entanto, Lucy sempre fora minha redenção – eu a amava, apesar de tudo, e isto fazia-me um homem melhor, creio eu.

   E tudo aquilo, sei que as irmãs conseguiram captar em mim, através daquela misteriosa feitiçaria. Sei que este relato parece fruto de uma mente insana, mas novamente ei de lhe confirmar, irmã: eu sei o que vi!

   Sarah então desatou as cordas que me prendiam.

   Em seguida, eu caminhara até Lucy, com os mais pesados sentimentos a demolir minha alma.
Ela sem dúvida não era a mesma, algo havia mudado em seus olhos, em seu semblante que outrora fora plenamente amável, e ora estava taciturno e sombrio.

   Seus olhar denotava absoluta fúria.
E tudo o que ocorreu em seguida, cara irmã, fora tão rápido, e mal posso crer que realmente aconteceu!
   Lucy investiu um punhal contra o dorso de minha barriga; sua força agora era sobrenaturalmente maior, de modo que assustou-me em demasia. O golpe, apesar de brutalmente desferido, não havia-me sido fatal.

   Então, sem pensar, - em um momento de total insanidade e descontrole - saquei minha adaga e cravei-a em seu coração!
Lucy gritara de dor.
Seu corpo desabou, inerte, ante a meus pés.

   Ao ver o que acabara de fazer, eu desatara em lagrimas.
Minhas mãos estavam manchadas de sangue – “O sangue de minha amada!” – Estremeci.
Deitei-me, juntamente a Lucy, no chão.
Segurei seu mão sem vida, encarei seu olhar vidrado – e não, eu não podia crer no que acabara de fazer.

   Olhei para as irmãs. Elas pareciam quase que indiferentes quanto ao ocorrido.
Então foram caminhando através da névoa da madrugada, até se desvanecerem completamente através do horizonte..
Eu as observava de longe as três silhuetas se afastando..
Logo, as lado delas, observei que as poucos foi surgindo uma quarta, a acompanhá-las.
Bem, depois de tudo o que vi até então, por que não acreditaria em fatos de natureza sobrenatural? Por que não acreditaria que esta quarta silhueta que eu avistei ao longe era o espectro de minha pobre Lucy?

   E eu continuava deitado com seu corpo absolutamente imóvel. Segurei-a em meus braços, ainda a chorar amargamente.

   Minha cara irmã, agora sabe que sou um homem condenado, nada mais que um assassino.
De modo algum me procure!
Estarei a vagar, errante, por estas terras nefastas, a procurar por redenção.. embora sei que nunca perdoarei-me pelo que fiz, e minha alma jamais encontrará paz novamente.

   Sim! Continuarei a vagar por estas terras por tempo indeterminado, com meu espírito envolvo no mais absoluto desalento.. Nestas terras onde, nos tempos remotos, as pessoas acreditavam em bruxas.


De seu afetuoso irmão, 
Willian Blanchard


FIM
by Vane


E hoje finalmente publico a última parte de A Witch's Tale, conto que comecei a muitas semanas atrás, e enfim encontrei algum tempo para finalizá-lo. Os links para os capítulos anteriores estão inseridos no início do post. :)

Lembrando que o conto é baseado nesta maravilhosa música.

Uma boa semana a todos!